E afinal o que faz com que 30 anos depois metade das bandas que surgem em Nova York ainda acendam uma vela a Marquee Moon? Será pelo seu brilhante jogo de guitarras entrelaçando-se à volta de uma secção ritmica perfeita? Será por soar completamente inovador sem recorrer a um único truque avant-garde? Será pela voz e dicção imperfeita, solta mas nervosa de Verlaine que ainda hoje serve de paradigma para muito indie da grande maçã? Ou talvez a temática filosófica, niilista e absurda das letras? Ou por soar completament urbano sem ter de recorrer a tons cinzentos?
É tudo isto e muito mais. É a demonstração que não é preciso ter dedos frenéticos para tocar solos altamente estilizados, a grande prova que se pode ser artistico sem ser progressivo. O som é clássico mas estranhamente pouco convencional. Sem quase uma única sombra do groove característico do Blues, estamos num território onde as músicas não são dançáveis, não são saltáveis. Um cigarro, uma bebida, um sofá, olhos fechados e uma boa dose de tempo livre são os requisitos necessários. Para apreciarmos e nos apercebermos que não existe uma única nota fora do sitio, para admirarmos as guitarras limpidas de Verlaine e Lloyd cruzando-se múltiplas vezes mas sem nunca seguirem o mesmo caminho, para decifrarmos o baixo que vai carregando a música em ombros, dando o espaço para a fantasiosa masturbação guitarrística, para sentirmos o pulsar discreto e o magnifico trabalho com os cimbalos de Billy Ficca.
Do surrealismo de Venus de Milo até à ternura de Guiding Light, da energia controlada de Friction ao final dramático em Torn Curtain passando pela majestosa Marquee Moon tudo aqui vai correndo com uma impressionante perfeição, em tons que vão do sonhador ao mordaz e irónico, cerebral e emocional. É sem dúvida um dos álbuns mais desafiantes de 1977 e ainda não lhe notamos uma única ruga...
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